“Achei que era depressão, mas estava com diabete!” Entenda os sintomas que podem se mascarar como outros problemas

De repente, Mariana Toledo virou uma pessoa supercansada e sem vontade de fazer nada além de dormir. Procurou uma psicóloga, mas precisava mesmo era de injeções diárias de insulina…

Até março deste ano, eu era uma pessoa hiperativa. Acordava às 6 horas da manhã, ia para a academia e, de lá, direto para o trabalho. Depois, corria para a aula de teatro. Pegava no sono só no começo da madrugada e, mesmo assim, pulava da cama feliz no outro dia. É claro que eu ficava cansada, mas nada preocupante. Só que, em questão de dias, comecei a sentir um desânimo que nunca tinha experimentado. Do nada, passei de uma pessoa cheia de vida para uma que vivia cansada e não via graça em nada. Virei uma pessimista. O trabalho, que eu amava, virou obrigação, assim como o teatro e a academia. Estava irreconhecível.

Perdi um grande amigo e procurei uma psicóloga. Eu já tinha convivido com um avô depressivo no passado e comparei os nossos sintomas. Eram muito parecidos! Preocupada, procurei uma psicóloga. Fazia sentido, porque havia acabado de perder um amigo muito próximo para o câncer e estava longe do balé, a dança que eu tanto amava, por ter quebrado o pé. Para piorar, isso aconteceu um dia antes de uma apresentação para a qual passei meses me preparando. Cheguei a emagrecer 15 kg para estar no meu melhor no grande dia, mas engordei tudo de novo em apenas dois meses depois do acidente. Com tudo isso, tinha que ser depressão.
Foi uma surpresa quando, após algumas consultas, a psicóloga disse que eu não estava deprimida. Como assim? Até minha chefe estava desconfiada. Afinal, ela me viu passar de uma funcionária pontual e produtiva para uma que chegava atrasada todo dia e batia o cartão por obrigação.
A terapeuta chegou a dizer que eu tinha somatizado a frustração e a dor do começo do ano, ou seja, tinha passado para o corpo meus problemas emocionais, mas não fechou um diagnóstico.
Passei mal e fui internada. Só aí descobri o diabetes
A resposta para minhas dúvidas só veio depois de uma viagem ao Rio de Janeiro que fiz com uma amiga. A praia estava linda, mas meu humor continuava péssimo, o que só aumentava minha certeza de ter depressão. Voltei pra casa e no dia 20 de abril, um domingo, acordei cedo e tomei o café da manhã como sempre fazia. De repente, comecei a passar muito mal. Fiquei fraca e tonta. Mal conseguia parar de pé. Achando que aquilo era queda de açúcar no sangue, minha mãe me levou até a casa de uma amiga diabética do bairro e picou meu dedo com o aparelho medidor de glicose. Só que meu nível de açúcar não estava baixo, ele estava era alto para caramba!
Fui parar no hospital e o médico que me atendeu nesse dia ficou muito assustado com o resultado. Uma taxa normal de açúcar no sangue é 100 mg/dl. Eu estava com cinco vezes mais que isso! Segundo ele, paciente s já haviam e n t r a d o em coma e até morrido com níveis de açúcar menores que o meu. “Você tem muita sorte por estar viva!”, disse. Fui parar na UTI, onde me diagnosticaram com diabetes tipo 1. Sim, era isso que estava causando todo aquele cansaço e desânimo que eu vinha sentindo. Também descobri que a doença é genética e que o gene causador pode ter se manifestado após todos aqueles episódios ruins do começo do ano. Era como minha psicóloga suspeitava, só que muito mais grave do que a gente esperava.
A insulina devolveu meu humor e ânimo pra vida!
Meu caso era tão grave que fiquei internada durante dez dias e precisei de quatro doses diárias de insulina por um mês. Além disso, tive que adotar uma dieta rigorosa: nada de massas, doces e frituras. Pra mim, que me considerava uma formiga e tinha uma gaveta cheia de chocolates no trabalho, aquilo foi uma tragédia. Foi tão difícil no começo que até chorei. Mas eu não tinha alternativa. Por isso, distribuí as guloseimas para os colegas.
Por outro lado, minha recuperação foi imediata. Assim que comecei a tomar insulina, já senti meu humor e disposição melhorarem. Com um mês de tratamento, voltei a ser a Mariana de sempre, animada e com vontade de viver. Também voltei a acordar cedo, a chegar no trabalho na hora certa, a frequentar o balé e o teatro. Como sei que o estresse e as emoções podem causar doenças físicas, agora tento levar uma rotina mais tranquila e procuro controlar a ansiedade. Mesmo assim, voltei com tudo. Acabei de fazer aniversário e comemorei a data por uma semana! – MARIANA TOLEDO, 24 anos, jornalista, São Paulo, SP

Mal uso da glicose pelo organismo provoca os sintomas e confunde pacientes

Cansaço e desânimo não são sintomas exclusivos da depressão. Esse desânimo acontece também no diabetes porque o corpo do paciente não está usando a glicose como fonte energética. Para que ela entre nas células e seja consumida, é preciso a presença da insulina. Como o pâncreas de quem tem diabetes tipo 1 não produz esse hormônio, a glicose não penetra nas células. Aí, o organismo começa a queimar gordura e proteína para produzir energia. Sem esses nutrientes, nos sentimos fracos, cansados e desanimados.
Hormônio do estresse pode manifestar gene da doença O diabetes tipo 1 é uma doença genética. Ele costuma se manifestar nos portadores do gene entre os 10 e 15 anos de idade. É que, nessa fase, o corpo passa por várias mudanças no metabolismo. O mais comum é que a doença apareça quando a pessoa contrai uma virose. O vírus estimula a reação autoimune da doença. Ou seja, faz com que as células do pâncreas fi quem vulneráveis, sejam atacadas por anticorpos e parem de produzir insulina. No caso da Mariana, aconteceu algo raro. O que fez com que o gene da doença se manifestasse nela foi um período de tensão. Quando o corpo passa por estresse, o organismo libera cortisol, hormônio que aumenta a produção de glicose. Como o pâncreas da paciente já não produzia insulina sufi ciente, os índices glicêmicos dispararam. Ou seja, o estresse acelerou o aparecimento da doença.

 

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