Homens também podem ter câncer de mama?

O câncer de mama masculino é evento raro. Somente 1% dos cânceres de mama acontecem no homem, ou seja, a cada 100 diagnósticos novos de câncer de mama 99 são em mulheres e apenas um em homens. Quando pensamos em todos os tipos de câncer que ocorrem na população masculina, o câncer de mama representa apenas 0,2% do total, com incidência média global de um caso para cada 100 mil homens por ano.

Visão geral

Esta incidência varia entre os países, apresentando altas taxas em Uganda e em outros países africanos, com presença de cinco casos por 100 mil homens. Isto se deve possivelmente à presença da hepatopatia crônica infecciosa e da cirrose hepática, que promovem um aumento dos níveis de hormônios sexuais femininos nos homens (hiperestrogenismo). O contraste neste sentido é com o Japão, que apresenta taxa de 0,5 por 100 mil homens, uma das menores do mundo.

Para o ano de 2015, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) do Ministério da Saúde estima a ocorrência de cerca de 57 mil novos casos de câncer de mama para a população feminina, com uma incidência de 56 casos para cada grupo de 100 mil mulheres. Na população masculina são esperados cerca de 570 casos novos de câncer neste mesmo ano, o que corresponde a 1% do número de casos de câncer de mama nas mulheres.

Segundo a Sociedade Americana de Câncer, em 2008 ocorreram cerca de 2 mil novos casos de câncer de mama na população masculina dos Estados Unidos, com 450 mortes relatadas por esta doença. Entre as mulheres ocorreram 182.460 casos novos de câncer de mama invasivo e 40.480 mortes neste mesmo ano.

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Apesar de se apresentar clinicamente de forma similar nos homens e nas mulheres, os homens frequentemente descobrem a doença em fases mais avançadas. Isso acontece por desconhecerem a possibilidade de desenvolverem câncer de mama e também por questões socioculturais, o que leva a uma demora na busca por auxílio médico de um mastologista.

Fatores de risco para câncer de mama em homens

Os principais fatores de risco para o aparecimento de câncer de mama no homem são:

Idade/envelhecimento

O risco de desenvolver câncer de mama é diretamente proporcional à idade. Como no caso das mulheres, quanto maior a idade maior é risco.

História familiar de câncer de mama

História familiar com parentes de primeiro grau com câncer de mama é um importante fator de risco. Quanto maior o número de parentes de primeiro grau com câncer de mama maior é o risco. Aproximadamente 20% dos homens com câncer de mama têm um parente de primeiro grau também com câncer de mama.

Mutação genética hereditária

Alterações genéticas estão presentes no câncer de mama masculino mais frequentemente que nas mulheres, variando de 4% a 40%. Estão envolvidos os genes BRCA2, BRCA1, CHEK2, PTEN dentre outros.

A maioria dos casos de câncer de mama masculino relacionados à alterações genéticas tem mutação do gene BRCA2, o que difere do encontrado no câncer de mama feminino, onde se observa como principal mutação genética a do BRCA1. A mutação do BRCA2 está presente em aproximadamente 10% de todos os casos de câncer de mama masculino e está relacionada ao aparecimento do câncer de mama em idade mais jovem (60 anos) e com características mais agressivas, além de aumentar a predisposição para câncer de próstata.

Descendência Judaica Ashkenazi

Os homens judeus Ashkenazi apresentam uma maior probabilidade de desenvolver câncer de mama, com uma incidência de três casos para 100 mil homens desta etnia, assim como no caso das mulheres. Isso decorre também devido ao fato de apresentarem maior risco de mutação do BRCA1 e BRCA2.

Exposição à radioterapia

Pacientes que sofreram irradiação torácica previa, como a usada para o tratamento de linfoma, apresentam um risco maior de desenvolvimento de câncer de mama.

Outros fatores

Várias doenças que causam hiperestrogenismo (aumento dos níveis do hormônio sexual feminino no corpo do homem) e diminuição dos níveis de andrógenos (hormônio sexual masculino) estão relacionadas ao desenvolvimento de câncer de mama masculino. Dentre elas:

  • Cirrose hepática – o fígado exerce importante função no metabolismo dos hormônios sexuais e sua disfunção está relacionada ao aumento dos níveis de estrogênio circulante
  • Obesidade – ingestão de alimentos gordurosos e vida sedentária também são fatores relacionados ao desenvolvimento de câncer de mama, pois a gordura periférica converte andrógenos em estrógenos através do processo de aromatização

No geral, pacientes com ginecomastia não apresentam maiores chances de desenvolver câncer de mama. No entanto, é importante frisar que a ginecomastia também deve ser investigada e realizada pesquisa para o entendimento da sua causa através de uma avaliação com o mastologista.

Sintomas

Os principais sintomas relacionados ao câncer de mama no homem são:

  • Presença de nódulo palpável na mama
  • Altercação da pele, como edema (aspecto de casca de laranja) ou vermelhidão
  • Retração da pele ou da aréola
  • Ulceração (ferida na mama)
  • Presença de gânglio na axila
  • Saída de secreção sanguinolenta pela papila mamária – o que é um evento bastante raro no homem

Tratamento

O tratamento do câncer de mama masculino, em linhas gerais, segue o que é realizado para as mulheres. Ou seja, através de cirurgia, radioterapia, quimioterapia e hormonioterapia.

A cirurgia é o principal tratamento do câncer de mama masculino. Em geral é realizada a mastectomia uma vez que a mama masculina é pequena sendo muito difícil a cirurgia conservadora, que pode ser feira em alguns casos de tumores bem iniciais.

A axila também é avaliada, em geral através da pesquisa do gânglio sentinela, que consiste na remoção do gânglio principal da axila mediante um mapeamento prévio. Esta técnica de pesquisa de gânglio sentinela só é aplicada quando os gânglios estão negativos ao exame físico do médico e nos exames de imagem. Para os casos que o gânglio já está clinicamente comprometido o tratamento adequado é a remoção de vários gânglios da axila (o que chamamos de esvaziamento axilar).

A quimioterapia para o câncer de mama masculino segue também os mesmos princípios que para as mulheres, devendo ser avaliado o tipo tumoral e seu imunofenótipo, bem como o tamanho tumoral e o grau de comprometimento linfonodal axilar.

A radioterapia exerce importante papel no controle locorregional do câncer de mama. Semelhante ao tratamento do câncer de mama feminino são candidatos à radioterapia os seguintes pacientes:

  • Irradiação da mama remanescente – para os pacientes submetidos à cirurgia conservadora da mama (nos raros casos em que isso é possível).
  • Irradiação da parede torácica pós mastectomia para os casos em que o tumor maior que 5 cm, há infiltração tumoral de pele ou presença de gânglio comprometido.

A hormonioterapia antiestrogênica é considerada como tratamento padrão adjuvante no câncer de mama masculino, uma vez que é bastante elevada a taxa de receptores estrogênicos positivos (90%). O tamoxifeno é a droga de escolha nesta modalidade de tratamento, que desempenha um importante papel no controle local com aumento no intervalo livre de doença e de sobrevida global.

Orientação familiar

Todo homem com câncer de mama deve se submeter à pesquisa de mutação genética dos genes BRCA 1 e BRCA2. Todos os familiares diretos deste homem, principalmente as do sexo feminino, devem passar por uma avaliação com um médico mastologista, pois apresentam um maior risco para o desenvolvimento de câncer de mama de origem genética/hereditária.