Amamentação salva vidas de mães e crianças de todas as rendas, demonstra estudo

Mulher sentada amamentando

Mamar no peito é coisa séria: não faltam pesquisas comprovando os benefícios do leite materno para a saúde da mãe e do bebê. A mais recente foi publicada na última sexta-feira, 29, na revista The Lancet e faz parte de uma série de estudos do respeitado periódico científico sobre o tema. Liderado por especialistas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, o trabalho é o maior e mais detalhado já realizado sobre o assunto e se baseou em uma extensa revisão de artigos científicos. Confira a seguir os principais achados da investigação.

Menos mortes de crianças e mulheres

Segundo o estudo, aumentar as taxas de aleitamento materno poderia prevenir que 800 mil crianças venham a óbito a cada ano – o equivalente a 13% de todas as mortes de meninos e meninas menores de 2 anos de idade. E mais: após revisar 28 trabalhos científicos, os pesquisadores concluíram que, em países ricos, a amamentação é capaz de diminuir em um terço a probabilidade de morte súbita na infância; já nas nações de baixa renda, um terço dos episódios de infecções respiratórias e metade dos casos de diarreia poderiam ser evitados se os pequenos mamassem mais no peito. Também há evidências de que o leite da mãe traz benefícios futuros para o filhote, como maior inteligência e menor propensão a diabetes e obesidade.

Mas não é só a meninada que sai ganhando: anualmente, 20 mil mulheres deixariam de morrer pelo câncer de mama se amamentassem mais. Os casos de tumores malignos nos ovários também poderiam ser reduzidos. Há uma ideia disseminada por aí de que os benefícios do leite materno só valem para países pobres. Nada poderia estar mais longe da verdade.

Vantagem econômica

Incentivar o aleitamento também é uma forma de economizar, segundo os estudiosos. Durante a investigação, eles perceberam que os prejuízos decorrentes dos baixos índices de amamentação foram responsáveis pela perda de 302 bilhões de dólares em 2012. Considerando só os países ricos, as despesas somaram 231,4 bilhões de dólares.

Os pesquisadores também calcularam que, se os índices de amamentação até o 6 meses de vida chegassem a 90% nos Estados Unidos (EUA), na China e no Brasil e a 45% no Reino Unido, os gastos com o tratamento de enfermidades como pneumonia, diarreia e asma diminuiriam. E não para por aí: os sistemas de saúde economizariam 2,45 bilhões de dólares nos EUA, 29,5 milhões de dólares no Reino Unido, 223,6 milhões de dólares na China e 6 milhões de dólares no Brasil.

Ricos X Pobres

Nos países desenvolvidos, apenas 1 em cada 5 crianças consome leite materno até completar o primeiro aniversário; já nas nações de baixa renda, 1 em cada 3 bebês é amamentado de forma exclusiva até os 6 meses de vida. Os pesquisadores brasileiros notaram que, no Reino Unido, por exemplo, a taxa de crianças que mamam no peito com 1 ano de idade é menor do que 1%. Na Irlanda e na Dinamarca, essa porcentagem é de 2% e 3%, respectivamente. A amamentação é um dos poucos comportamentos positivos que é mais comum em países pobres do que ricos. E, mesmo nas nações pobres, é mais frequente em mães de baixa renda.

Brasil e Bangladesh são exemplos

De acordo com os autores do trabalho recém-publicado no Lancet, a saída para aumentar os índices de amamentação é investir, entre outras coisas, em políticas públicas e programas de incentivo a essa prática. E o Brasil é um exemplo disso: em 1974 e 1975, os recém-nascidos mamavam só até os 2 meses e meio de vida; no período de 2006 a 2007, os pequenos consumiam leite materno até os 14 meses. Essa melhora, segundo os estudiosos, é resultado de uma combinação de ações na saúde pública, na sociedade civil e na mídia.

Bangladesh é outro país que conquistou grandes feitos quando o assunto é aleitamento materno – eles aumentaram em 13% a taxa de amamentação exclusiva até o 6 meses de vida. Isso porque apostaram na extensão da licença-maternidade, no treinamento de profissionais da saúde, em campanhas midiáticas e na mobilização da comunidade.

Fórmulas infantis

Desde 1981, quando foi instituído o Código Internacional de Marketing para os Substitutos do Leite Materno (BMS, na sigla em inglês), empresas investem massivamente no mercado de fórmulas infantis. Embora esses produtos sejam, de fato, uma maneira de alimentar bebês que não podem receber o leite da mãe, os autores da pesquisa propõem uma regulamentação.

Muitas pessoas pensam que o leite materno pode ser substituído por produtos artificiais sem prejuízo algum. As evidências da pesquisa, das quais participaram alguns dos maiores experts no assunto, não deixa dúvidas de que a decisão de não amamentar tem efeitos negativos na saúde, na nutrição e no desenvolvimento da criança e no bem-estar da mulher.